CARTA PARA AQUELA CRIANÇA
Querida criança,
Sei que parece estranho esse suspeito
papel estar em suas mãozinhas nesse momento. Você não me conhece. Eu não lhe
conheço. Não nos conhecemos. Mas por
motivos que nem sempre conseguimos – ou simplesmente não queremos entender –
minhas palavras se fixaram em um pedaço de papel, formando uma mensagem
especialmente para você.
Um dia você irá crescer. Hoje isso pode
parecer uma ideia genial. Sei que você deseja ter liberdade para sair de casa
sem hora para voltar; sem precisar dizer aos pais o que está indo fazer. Sei que parece chato ter que comer os
vegetais e a carne de fígado que estão lá no seu prato na hora do almoço.
Talvez crescer seja legal. Como tudo na
vida, tem seu lado bom. E também o ruim. Não vou lhe enganar, pequena criatura,
o mundo é feio quando bem observado; as pessoas são malvadas; há gente que
gosta de fazer o mal, de ver os outros chorando.
Mas também existem coisas boas, e é sobre
uma delas – talvez a maior – que quero lhe falar: o Amor.
O Amor é um negócio bacana que faz as
pessoas sorrirem. Você certamente ama seus pais; seus amigos; seus irmãos; sua
professora. Ama doces e desenhos animados. Estórias e banho de chuva. Sorvete
e parquinho.
O maior problema é que os adultos têm a
mania de perder o jeito para o amor. O tempo vai passando e eles vão ficando
rabugentos e reclamões. Nada está bom e tudo parece errado. Amar deixa de ser
necessidade.
Você não pode deixar isso acontecer em
sua vida.
E precisa ensinar seus filhos a não
deixarem isso acontecer na vida deles, para que eles possam ensinar o mesmo aos
filhos deles.
Porque amar é como ter um arco-íris no
peito.
É como comer bolo de chocolate antes do
jantar sem levar bronca da mãe.
É como passar o fim de semana na casa do
melhor amigo.
Você não pode permitir que toda a loucura
da vida de adulto tire o Amor do seu coração. Sem ele você será como uma
máquina que faz tudo só pelo frio motivo de ter que fazer.
Sem ele, você reclamará dos dias
chuvosos, no lugar de brincar na chuva com seu filho e o amiguinho dele que irá
passar o sábado na sua casa.
Sem ele, você vai se tornar escravo das
dietas e falará mal do algodão doce.
Sem ele, você vai achar que ler é
obrigação. Que ninguém deve correr; nem andar descalço; nem deitar no chão da
sala; nem pular o muro; nem sorrir quando os dentinhos de leite começarem a
cair.
Sem amor, você vai fechar os olhos para a
poesia e os ouvidos para a música. Não
vai dar risada. Não vai querer crianças correndo pela casa.
Sem amor, você não vai ser ninguém... Ou
pior, você vai ser só mais um... Será como qualquer outra alma atormentada pelo
fantasma do “adultismo”.
Então, a maior lição que você deve
carregar e espalhar pelos cantos em que passar, é que o Amor deve viver, mesmo
que tudo acabe.